29/12/2023 / 04:20 PM
Ontem, Mark me enviou fotos da Costa Rica. Respondi com uma foto do filme que estava assistindo no cinema próximo ao apartamento dele. Guess the movie. “Priscilla”. Três semanas atrás, disse que estava me separando. Ele quis me ver, mas desconversei. Where are you? Faz tanto tempo. “Love is always a matter of timing.” Mas é fim de ano. Em alguns dias, ele estará de volta. I’m not going to lie I am looking forward to it. Com ele, me sinto como a Priscilla da Cailee Spaeny perto do Elvis do Jacob Elordi. Ele é enorme, uma espécie de all-American boy. Nunca pensei que poderia me apaixonar por alguém como Mark. Outro dia, sonhei que estávamos novamente deitados no sofá; senti o peso dos braços, seus músculos, e o longo cabelo dourado em que me enroscava, me perdendo no que ele chamou de “the days of ’23”. Felt like home.

14/12/2023 / 09:16 PM
The extent to which beauty is believed to deliver the goods of the good life goes far beyond what beauty actually delivers. That beauty does not deliver as much as is believed does not stop people valuing it and feeling shame if they fail to attain it. Accordingly, beauty is shaping what we value, how we judge ourselves and others, and what we do.
(Heather Widdows)

09/12/2023 / 05:55 AM
Talvez tenha passado a vida inteira lutando contra o que nasci para ser; trophy wife de um homem bem hétero, bem burguês, levada a tiracolo para escapadas ocasionais da minha gaiola dourada, sempre alinhadíssima e pronta para abrir a boca em um largo sorriso, dizer a coisa certa na hora certa e, mais importante, ser educada para saber quando fechá-la, o que, pensando bem, não é muito diferente do papel que assumo quando estou trabalhando. Talvez devesse me conformar com o destino. Até agora parece que cada escolha que fiz foi a errada, como se sempre houvesse paredes invisíveis como as dos videogames. Que vida é essa pela qual luto? Tenho a impressão de que meu analista fica particularmente empolgado quando falo sobre o desejo de me divorciar. Meu marido é a corda, ele disse, e penso que talvez ele, o analista, seja o homem bem hétero, bem burguês — em seus braços, além de sorrir, deveria ser bem-educada, perfeitamente culta. Meu analista é, certamente, a única pessoa que me enxerga além da imagem que seduz, a única pessoa que deseja entender o que está além da superfície. Deve ser por isso que me sinto atraída por ele. Do lado de fora do consultório, falam comigo como se não fosse necessário pelo menos duas pessoas para foder; se seduzo, tem alguém do outro lado da linha. (Metade do que escrevo é ficção, a outra metade pertence a outros.) Sei que transar com ele implicaria perdê-lo. Jamais faria isso. A cafonice da comunidade da literatura — tratar todo e qualquer textinho como grand oeuvre —; a indiferença da comunidade das artes: quem me escutaria? Preciso de uma testemunha pra minha loucura, pra minha depravação, pra minha compulsão por calmantes. Imagina, jamais gozaria com meu analista.

29/11/2023 / 08:42 PM
Entre os 18 e os 20, tive bulimia. Levou alguns anos para que conseguisse nomear. A princípio, o desejo era me curar pela fala. Aos poucos, as memórias vieram à superfície; minha mãe trancada no banheiro depois das refeições, o primeiro comprimido de laxante que ela me deu, cortes e furos que ela fazia em mim com bisturis e agulhas — os bisturis, ela surrupiava do hospital em que trabalhava, as agulhas eram herança da minha avó costureira. Entre os 18 e os 20, passava quase o dia inteiro sem comer. Então fraquejava e comia até passar mal. Pringles, McDonald’s, dois litros de sorvete. Me entupir de gordura, sódio e açúcar era uma forma de compensar toda a dor que sentia. Claro, também era uma forma de automutilação. Depois das refeições nababescas, enauseada, enfiava o dedo na goela. As sessões de vômito eram entrecortadas por longos exames frente ao espelho. Pelo reflexo, observava minuciosamente todos os meus ângulos; muitas vezes chorando, mas sempre beliscando minha pele a ponto de provocar várias feridinhas pelo corpo. Entre os 18 e os 20 anos, estava magra e recebia muitos elogios, sobretudo da família, que me mantinha sob rédea curta. Quando saí de casa, aos 21, a bulimia parou e ganhei peso — e, honestamente, acho que nunca me perdoei por isso; por parar antes de encolher até sumir, por ocupar cada vez mais espaço, usar minha boca para enunciar, a boca que está permanentemente anestesiada; parestesia, eles dizem. Dia desses, por um motivo qualquer, cerrei os dentes e fiz o movimento de sucção com os músculos das bochechas. Senti gosto de sangue, jorro das minhas gengivas que, em circunstâncias normais, deveriam doer. Fui até o banheiro e cuspi o sangue misturado à saliva. Observava o espesso rastro de fluídos corporais escorrer pelo ralo pensando como um gesto tão simples, mas que demandou 35 sessões de fisioterapia para que eu pudesse tornar a fazê-lo, podia verter todo aquele sangue? Contrair a boca, segurar os lábios superiores em uma espécie de isometria, retrair conscientemente os músculos ao sorrir se tornaram uma espécie de cacoete, sintomas histéricos do desejo de recuperar as sensações na face [cura] que, à essa altura, não serão mais recuperadas. Mas não foi isso que me tornou bela? Pelas mãos do cirurgião, que, com martelo e cinzel, refez meu rosto. Como uma estátua. Nesse sentido, o sangue que brota da minha boca é um lembrete da vida que resta em meus tecidos envelopados pelo titânio, nos 56 parafusos que carrego dentro da minha cabeça.

21/11/2023 / 05:09 PM
Por que Nelly Arcan e Chiara Fumai se suicidaram por enforcamento? Seria possível matar-se por desejo? (Eros na forma do cruzamento entre o amor e o ódio, afetos que se interpenetram.) Por ódio a si mesma. “A corda é o instrumento da forca.” Meu analista disse que meu marido é a corda. Corda, instrumento de punição? Corda, bondage, amarração, cordão umbilical, útero, líquido amniótico, água, oceano, inconsciente, universo simbólico, retorno ao útero.



17/11/2023 / 00:34 AM
De um lado, o superficialmente erótico foi encorajado como símbolo de inferioridade feminina; de outro lado, as mulheres foram levadas a sofrer e se sentirem desprezíveis e suspeitas em virtude de sua existência. É um pequeno passo daí à falsa crença de que só pela supressão do erótico de nossas vidas e consciências é que podemos ser verdadeiramente fortes. Mas tal força é ilusória, pois vem adornada no contexto dos modelos masculinos de poder.

Como mulheres, temos desconfiado desse poder que emana de nosso conhecimento mais profundo e irracional. Fomos alertadas contra ele por toda nossa vida pelo mundo masculino, que valoriza essa profundidade do sentir a ponto de manter as mulheres por perto para que o exercitemos para servir aos homens, mas que teme tanto essa mesma profundidade para examinar suas possibilidades dentro delas mesmas.
(Audre Lorde)

14/11/2023 / 11:25 PM
J’étalais mes tripes sur la place publique. C’était presque un sacrifice de moi-même que j’étais en train de faire. Je n’ai pas de regrets, mais je ne veux plus de ça.
(Nelly Arcan)

11/11/2023 / 01:43 PM
Eu e você caminhando na praia
em uma sexta de manhã,
o mar está manso e o sol alto no céu reluz na calmaria da água.
Eu, com a roupa da noite anterior,
seguro as sandálias com a mão esquerda
meus brincos dourados oxidam,
            maresia
posso sentir o gosto do oceano — por sorte,
havia um par de óculos escuros na minha bolsa.
Você, a alguns passos de distância,
molha as canelas nuas no mar

ao meu lado. A água espraia
lambendo os dedos do meu pé, não quero
molhar a calça de linho que uso, de repente
a areia está pintada de conchinhas de muitos tamanhos
            e cores diferentes
você pega uma —

é sua primeira vez aqui
comigo

nosso silêncio entrecortado por observações mundanas
o cachorro que se esfrega alegre na areia, o bebê que,
            nos braços do pai, tem os pezinhos tocados pelo mar pela primeira vez.
Percorremos quilômetros sem nem sentir, sinto apenas que,
            na praia, me afasto da noite, veloz
estou indo para casa. Espero que você saiba

estou te mostrando uma parte importante do meu mundo
            [minha vida nova] o que deixo você ver, nem todos viram —
na noite anterior, em vez de tirar a roupa, adormeci segurando sua mão
você fala pouco, mas não importa.
É sexta, é manhã, estamos em Copacabana,
e isso basta.

06/11/2023 / 12:17 AM
Eu sempre me pergunto o que meu psicanalista pensa sobre meu caso, sobre minha putaria e minha feiura, sobre minha mania de ser minha mãe, na verdade não tenho certeza de que ele pense o que quer que seja, o que se pode pensar senão aquilo que geralmente se pensa perante um fisiculturista preso a seu peso como se ele fosse um dos mais preciosos tesouros, ou perante um drogado caído em um banheiro público, tomado do sangue de uma veia mal escolhida, picada às pressas?, o que se pode sentir senão a piedade que experimentamos perante a baixeza dos outros?, a vida reduzida a um único gesto, que bate sem cessar na mesma parede e colide sempre no mesmo lugar, a vida que recomeça de novo e de novo sob a mesma situação mórbida e que chega sempre à mesma conclusão, homens isso e mulheres aquilo, os clientes e as smurfettes, enquanto ele tenta me empurrar para outra direção como se eu fosse capaz [...]
(Nelly Arcan)

22/10/2023 / 07:45 PM
Os materiais das obras pornográficas tidas como literatura são, precisamente, uma das formas extremas de consciência humana. Sem dúvida, muitas pessoas concordariam que a consciência sexualmente obcecada pode, em princípio, ingressar na literatura como forma de arte. Literatura sobre a luxúria? Por que não? Mas, em seguida, elas comumente acrescentam uma cláusula ao acordo, que na prática acaba por anulá-lo. Exigem que o autor tenha a adequada “distância” de suas obsessões para que possam considerá-las literatura. Tal padrão é mera hipocrisia, revelando, mais uma vez, que os valores usualmente aplicados à pornografia são, afinal, os pertencentes à psiquiatria e aos estudos sociais, mais que à arte. (Desde que a cristandade elevou a parada e se concentrou no comportamento sexual como a raiz da virtude, tudo aquilo que pertença a sexo tem sido um “caso especial” em nossa cultura, provocando atitudes peculiarmente inconsistentes.)
(Susan Sontag)

17/10/2023 / 03:48 PM
Por que Medeia, a mulher que mata os próprios filhos, é salva por Hélio, seu avô, no fim da tragédia de Eurípedes? Não podia entender; não que sentisse um arroubo moralista, o clamor silencioso por “justiça” — a punição da filicida —, mas como é possível que no seio da mitologia ocidental haja uma figura como Medeia? Se até Édipo arranca os olhos ao tomar conhecimento dos atos que cometeu, por que ela é resgatada em uma carruagem dourada enviada pelo Sol?

Pra início de conversa, Medeia abandona a terra natal, matando o irmão no processo, em troca de poderes políticos. Jasão promete a ela que, com o velocino de ouro, os dois serão, juntos, invencíveis. Haverá conquistas e a partilha dos frutos destas conquistas. Em Corinto, terra estrangeira, Medeia é tratada como cidadã de segunda classe. Tornada mulher de Jasão, é estuprada e dá à luz seus herdeiros. Não há frutos para Medeia.

Há um problema em como Eurípedes conta o mito. Não se trata de uma esposa em busca de vingança contra o marido infiel, a mulher que viola a relação materna, nosso primeiro laço amoroso. Medeia é uma estrategista política. Antes mesmo de se casar com Glauce, Jasão trai Medeia ao descumprir o pacto que fizeram. Por fim, ela fere Jasão com precisão cirúrgica, aniquilando um dos princípios basilares do ordenamento familiar; a prole, a posse, a propriedade privada, o poder patriarcal. Medeia emascula Jasão e, embora Jasão diga que ela agora é odiada por deuses e seres humanos, a fuga na carruagem do Sol só é possível porque os deuses estão ao lado de Medeia.

15/10/2023 / 03:13 PM
A história da minha vida não existe. Ela não existe. Nunca há um centro. Nem caminho, nem linha. Há vastos lugares em que é de se crer que houvesse alguém, não é possível que não houvesse ninguém. A história de uma minúscula parte de minha juventude, já a escrevi mais ou menos, enfim, quero dizer, dei-a a perceber; falo justamente desta parte, a da travessia do rio. O que faço aqui é diferente, e parecido. Antes, falei dos períodos claros, dos que estavam esclarecidos. Aqui falo dos períodos encobertos dessa mesma juventude, de certos fatos, certos sentimentos, certos acontecimentos que enterrei. Comecei a escrever num meio que me impelia fortemente ao pudor. Escrever para eles ainda era moral. Escrever, agora, é muitas vezes como se não fosse mais nada. Às vezes sei disto: que a partir do momento em que não é mais, todas as coisas confundidas, ir ao sabor da vaidade e do vento, escrever não é nada. Que a partir do momento em que não é, a cada vez, todas as coisas confundidas numa só por essência indefinível, escrever não é nada senão publicidade.
(Marguerite Duras)

10/10/2023 / 08:05 PM
Lolita não é uma história de amor. Quando li pela primeira vez, aos 13, estava de férias com meu pai. Havíamos feito uma viagem de carro de dois dias, de Brasília para Salvador. No sertão baiano, quando fizemos uma parada em um posto de gasolina, o frentista me constrangeu com a forma como me olhava. Reclamei com meu pai, que respondeu algo como “claro, com essas tetas pra fora!” — o que, além de reforçar o constrangimento, me deixou bastante confusa, porque eu só usava uma regata. Me pergunto quantas meninas leram Lolita em uma idade próxima à personagem. Como elas devem ter se sentido?

No livro de Nabokov, Dolores tem 12 anos. Depois da morte da mãe, ela se vê nas mãos de um tutor legal que, ao mesmo tempo que se impõe como amante, se impõe como pai. Nessa ordem. Ele a estupra e a repreende com surras. Humbert Humbert, narrador não confiável, romantiza as próprias perversões — desde o início, ele sabe as implicações morais de seu desejo, mas joga com nossas emoções. Humbert manipula quem escuta sua história, na tentativa de nos fazer ter empatia com um pedófilo.

“Minha alma, minha lama”. No original, “my sin, my soul”. Boa parte da história se passa durante uma longa viagem de carro pelos Estados Unidos, da qual Dolores tenta escapar sabendo que é preciso manipular na mesma medida, usar sua sexualidade como arma. Enfim, consegue. Destruído pelo erotismo, HH quer nos fazer ver que Lolita tinha agência. Jamais diria o contrário, apesar de entender que Dolores é uma sobrevivente; respondo apontando para um dos aspectos fundamentais do livro, o reconhecimento de uma cultura que erotiza meninas ao mesmo tempo que as reprime por expressarem sua sexualidade. Lolita morre aos 17, dando à luz. (A mesma idade que minha mãe tinha quando nasci.)

Foi também nessa viagem a Salvador que meu pai me deu um esporro porque havia papel higiênico sujo de sangue menstrual na lixeira do quarto do hotel. Hoje, penso em como é curioso que o que tenho dito na análise nas últimas sessões é que odeio ter seios grandes e que odeio menstruar, duas características proeminentes para minha performance de feminilidade; os seios são fotogênicos, eu sei, sempre são elogiados, as pessoas adoram tocá-los e pôr na boca; já o sangue menstrual, apenas um enorme transtorno. Jamais seria mãe. Na minha cabeça cooptada pela misoginia do Madonna-whore complex seria impossível, já que sou puta — nasci puta.

25/09/2023 / 06:06 PM
Beware! Our idols and demons will pursue us until we learn to let them go!
(Madonna)

19/09/2023 / 02:57 PM
O primeiro problema do pornô é que ele acerta em cheio o ponto cego da razão. Ele se endereça diretamente ao centro das fantasias sexuais sem passar pela palavra, sem reflexão. Primeiro a gente fica molhada ou tem uma ereção, depois pode se perguntar o porquê. Os reflexos de autocensura são desestabilizados. A imagem pornográfica não te deixa escolha: é isto que te excita, é isto que te faz reagir. Ela sabe onde apertar para que funcionemos. Essa é sua força maior, sua dimensão quase mística. E é lá que se atiçam e urram muitos dos manifestantes antipornô. Eles se recusam a falar diretamente de seu próprio desejo, se recusam a que lhes seja imposto descobrir coisas sobre si mesmos que preferiram calar ou ignorar.
(Virginie Despentes)

10/09/2023 / 04:53 PM
Realizing you didn’t have a normal childhood... It’s the strangest feeling. Sometimes, you genuinely feel that something is wrong, but your parents gaslight you into believing that you are the one who’s wrong. Then, you cut contact in order to heal, but you still get triggered by so many—seemingly—random things. You build a wall without even realizing, and you do it to protect yourself. You’re constantly trying to read people, anticipating what will make them happy so they won’t hurt you. I’m a people-pleaser. At times, I feel like I’ll never be able to function as a proper human being. Building relationships is so hard... Most people won’t understand what you went through at such a young age. Maybe a few will, but most of them won’t.

09/09/2023 / 05:32 PM
After Marilyn Monroe’s death Joan saw herself in this person and feared that she would be used and discarded in the same way as Marilyn, but now, because she has chosen to stand on her own and provide for herself rather than using her skills to get a man to provide for her-just cutting out the middle man entirely—we see a version of Joan that is so much stronger and more resilient than she could have ever hoped to be. She is single and alone but far from lonely.

A Joan Harris that is standing on her own feet is absolutely the right message to send because so many beautiful women like Joan Harris are chewed up and spit out every single day, used and abused and discarded by the men who they thought love them. Joan reclaims herself, her dignity, and her power by keeping her femininity for herself and her creativity to herself in denying these men access to both her mind and her body and that’s powerful.
(Emelyne Museaux)

08/09/2023 / 09:00 PM
Sofia Coppola’s films center on the loneliness of being female and surrounded by a world that knows how to use you but not how to value and understand you. She shows the underbelly of femininity: how it can be dark and grotesque. The genius of her filmmaking is its ephemera—you’re entranced by the beauty of these films as you watch them and are struck with melancholy for days after.
(Broey Deschanel)

03/09/2023 / 10:38 PM
A história diz respeito ao porquê a gente ama se apaixonar. A beleza gira, e a mente se move. Captar a beleza seria entender como é possível essa estabilidade impertinente dentro da vertigem. Mas não, o prazer não precisa chegar tão longe. Correr sem fôlego, ainda que sem chegar, é em si mesmo uma delícia, um momento em suspensão de esperança viva.
(Anne Carson)

30/08/2023 / 05:05 PM
(Nota vomitada correndo na esteira da academia enquanto ouvia “Brass in Pocket”:) passei os últimos meses fodida de grana, afinal quem vive com uma bolsa de mestrado, pensei em voltar a fazer camming ou até mesmo outros tipos de trabalho sexual; programa ou um daddy — encontrei um cara no Tinder que estava disposto a pagar 300 reais por um pote de saliva, se fosse só mandar um Uber entregar na casa dele, beleza, mas de repente ele queria que nos encontrássemos para um boquete dentro do carro e, sinceramente, que nojo—sou artista, é o que escrevo no campo “profissão” dos formulários, está escrito ao lado do meu nome e do meu estado civil no contrato de empréstimo do banco que assinei hoje, talvez seja precisamente por isso que considerei voltar ao trabalho sexual, só que não tenho mais saco pra ser uma fantasia, sim, é só encarnar alguém que você não é, basta se ver como se vê uma mulher, como diria Nelly Arcan, “com seios marcantes, curvas e um talento para abaixar os olhos”, mas talvez uma chave tenha virado e eu não sinta mais aquela necessidade lancinante de agradar os homens, basta meu pai, sim, ele que me tratou como uma mulher antes de qualquer outro homem—quando digo que assisto pornografia desde a infância, as pessoas não acreditam—talvez eu queira essa paz, um sacrifício que custa o que vale; agora que entendi que sou um ser humano, não quero mais fingir.

22/08/2023 / 10:17 AM
O rosto não é animal, mas tampouco é humano em geral, há mesmo algo de absolutamente inumano no rosto. É um erro agir como se o rosto só se tornasse humano a partir de um determinado limiar: close, aumento exagerado, expressão insólita, etc. O rosto é inumano no homem, desde o início; ele é por natureza close, com suas superfícies brancas inanimadas, seus buracos negros brilhantes, seu vazio e seu tédio. Rosto-bunker. A tal ponto que, se o homem tem um destino, esse será mais o de escapar ao rosto, desfazer o rosto e as rostificações, tornar-se imperceptível, tornar-se clandestino, não por um retorno à animalidade, nem mesmo pelos retornos à cabeça, mas por devires-animais muito espirituais e muito especiais, por estranhos devires que certamente ultrapassarão o muro e sairão dos buracos negros, que farão com que os próprios traços de rostidade se subtraiam enfim à organização do rosto, não se deixem mais subsumir pelo rosto, sardas que escoam no horizonte, cabelos levados pelo vento, olhos que atravessamos ao invés de nos vermos neles, ou ao invés de olhá-los no morno face a face das subjetividades significantes.
(Gilles Deleuze e Félix Guattari)

22/08/2023 / 10:10 AM
Quando tirei a máscara, vi quem era, as máscaras caíram, finalmente pude ver meu verdadeiro rosto — sem as máscaras, não era ninguém. O rosto não dizia nada. Ela viu quem era, e não era ninguém.

18/08/2023 / 12:03 AM
Aos risos, Luciana me contou que, na adolescência, queria que sua primeira tatuagem fosse uma tramp stamp escrita “Live fast, die young”. Eu a conheci através de Gabriela, nossa amiga que morreu aos 23 anos, em um trágico acidente de carro. Quando a conheci, Gabriela era a garota mais legal da escola. Ela era gorda, e eu achava isso o máximo. Foi com ela que comecei a fumar maconha. Com 19 anos, Gabriela começou a perder peso. Quando ela pintou o cabelo de loiro, disse que ela estava parecida com a Sharon Tate. Ela sorriu e agradeceu, claro, jamais suspeitando de que as coincidências entre as duas extrapolariam a semelhança física.

12/08/2023 / 07:09 PM
Um doméstico, mas selvagem.
(Mariana Guimarães)

03/08/2023 / 11:11 AM
Goodbye old sleepyhead, I’m packing you in like I said.
Take care of everything, I’m leaving my wedding ring.

Don’t look for me, I’ll get ahead.
Remember, darling, don’t smoke in bed.

⎯Peggy Lee, 1948

Cresci com a sensação perene de ter o corpo observado a todo tempo. Parecia haver alguém me vigiando de rabo de olho. Talvez os mesmo olhos que seguiam minha mãe, minhas tias, minhas avós e, mais tarde, minha madrasta. Mas pode ser que eu tenha apenas aprendido com elas. É virtualmente impossível deixar de sentir toda a atenção voltada para mim. Então me conforta poder controlar como meu corpo é visto. Por isso, comecei a fazer autorretratos. Não gosto de ser fotografada pelos outros. É como se, nesse gesto, ecoassem os pensamentos intrusivos—paranoia de querer ser o que se é —

Além disso, era preciso que cada mulher tivesse um homem. Talvez por isso tenha casado aos 24 anos. À época quis comprar um par de alianças, mas ele disse que não usaria. A sensação de ter uma anilha ao redor do dedo o tempo todo era insuportável e, honestamente, acredito nele. A falta de alianças em nosso casamento, ao contrário do esperado, cimentou a relação. Como poderia partir deixando minha aliança para trás, sobre a cômoda, se não tenho aliança?—imagino, com sadismo, como deve ser sufocante para ele ler essas notas, descobrir junto ao público os segredos que, além de mim, só ele e meu analista deveriam saber — seguimos atados pela ausência das alianças, pelos débeis exercícios poéticos, golpes vacilantes de crueldade, pela crueldade.

27/07/2023 / 07:45 PM
A fragilidade de todo sucesso.
Por trás da glória, a solidão.
O vazio sob a intensidade.
A infelicidade da existência maquiada.
Sob o mais radiante sorriso: a morte.
(Edgar Morin)

26/07/2023 / 01:23 PM
I was repeating my own damaging self-harm inflicting behavior to myself over time, and that was really weird, that I hadn’t made that connection when I was doing the Scandalishious project at all. I’m like “ok, there’s just something inside of me that loves these kind of secret dark worlds that is just always dealing with my sexual repression, sexual shame, and has always just found that release for myself on the internet”.
(Ann Hirsch)

09/07/2023 / 09:58 PM
A vida animal — a vida sensível em todas as suas formas — pode ser definida como uma faculdade particular de se relacionar com as imagens: ela é a vida que as próprias imagens esculpiram e tornaram possível. Cada animal não é senão uma forma particular de abertura do sensível, uma certa capacidade de apropriar-se dele e de interagir com ele. “Como a faculdade vegetativa opera sobre o alimento, assim a faculdade sensitiva precisa do sensível para poder ativar-se” (Alexandre de Afrodísia, In De anima, 39, 2-3). Se é a faculdade sensitiva que dá nome e forma a todos os animais, as imagens desempenham um papel semelhante ao alimento, ao delinear a maneira pela qual cada um vive. A vida precisa, na mesma medida, tanto do sensível e das imagens quanto da nutrição. O sensível define as formas, as realidades e os limites da vida animal. Portanto, para que a vida exista e se dê como experiência e sonho, “é necessário que exista o sensível” (De anima, 417b 25-6).
(Emanuele Coccia)

09/07/2023 / 09:36 PM
Vivemos porque podemos ver, ouvir, sentir, saborear o mundo que nos circunda. E somente graças ao sensível chegamos a pensar: sem as imagens que nossos sentidos são capazes de captar, nossos conceitos, tal qual já se escreveu, não passariam de regras vazias, operações conduzidas sobre o nada.
(Emanuele Coccia)

27/06/2023 / 09:34 PM
Você sabe muito bem que não quero nada com esse homem pois só desejo aquilo que não posso ter, como você, por exemplo, eu te quero pois jamais terei você, pura e simplesmente, lógico como dois mais dois, o desejo que só conhece sua própria realidade, e você compreende muito bem que eu mereço a morte por causa dessa teimosia de ratazana que não sabe como voltar atrás, por causa dessa obstinação de besta cega que acabará morrendo por ter ido longe demais, você verá muito bem, eu morrerei por este compromisso que não quero estabelecer, sinto muito por todos os homens sãos e equilibrados que me amarão e, sobretudo, sinto muito por mim mesma, já que amarei os outros, todos nós acabaremos morrendo por causa da discordância de nossos amores.
(Nelly Arcan)

25/06/2023 / 10:48 AM
A imposição da beleza, comumente atrelada a sensualidade e sex appeal em relações heteronormativas, implica na transformação da mulher em mero objeto de contemplação. Ainda assim, é um poder outorgado pelo patriarcado, com limites muito bem demarcados. A condição da beleza é relacional. Na medida em que constitui uma série de privilégios — que, diga-se de passagem, se valem da supremacia branca —, a beleza compactua com as mesmas estruturas opressoras que a controlam. Tal fragilidade está expressa na íntima relação entre a condição da beleza e seus ideais. É possível deixar de ser bela; ora, o corpo gordo, o corpo idoso e o corpo excessivamente modificado por cirurgias plásticas, para citar apenas alguns exemplos, estão culturalmente associados à abjeção. Da mesma forma, a vamp, a femme fatale, a devoradora de homens — a mulher que ameaça por ter consciência do próprio poder de sedução, que é, em si, um mecanismo de destruição do outro — é, conforme o binômio reducionista e ofensivo mãe e puta (Madonna-whore complex), a puta. Nossa Senhora Babalon, a mulher escarlate, é um demônio. A Virgem Maria é a mãe de deus. Não tivesse morrido antes, Marilyn Monroe poderia ter se tornado um demônio, mas, vítima dos homens que deram a ela a atenção que tanto buscava sob a condição de se desumanizar, tornou-se uma deusa de carne viciada em barbitúricos, insone por causa dos traumas de infância, que só poderiam ter acontecido com uma menina indesejada.

24/06/2023 / 05:30 PM
Embora estejam envolvidas, ambas, numa dança em espiral, prefiro ser uma ciborgue a uma deusa.
(Donna Haraway)

22/06/2023 / 01:32 PM
Contemporary ecological discourse and science oscillate between the affirmation of a love that would occur spontaneously among living beings and the prescription of a compulsory love accompanied by a spirit of repentance. By its own confession, the problem of ecology is an erotic problem: we fail to love the planet. We have not been educated or accustomed to thinking of love as something that can affect individuals belonging to different species or kingdoms: and as we see in fairy tales, we are ready to love a frog only if it turns into a prince. [One has to ask oneself] what it means to think about nature as if the relationships that bind species are (as complicated as) love relationships and if we can understand what love is, in its original and paradigmatic form, as that which always binds us to individuals of other species.
(Emanuele Coccia)

20/06/2023 / 11:17 AM
Beauty is misogyny
Beauty is currency

11/06/2023 / 06:35 PM
Mark tinha o hábito de descansar o rosto sobre os meus seios. Não era sempre que transávamos. Ele gostava mais de enterrar a cabeça no meu colo, me abraçando com força, do que de me penetrar com o pau duro. Ele perdeu a ereção algumas vezes e, perto do fim, começamos a cheirar cocaína sempre que nos encontrávamos. “Com pó, o pau não levanta”, pensei. He really liked holding me, era o que dizia, e a primeira vez que ficamos abraçados, em longo silêncio, soube que sairia daquele apartamento em Botafogo de coração partido. Além disso, tive visões dos nossos encontros meses antes de conhecê-lo. “É perigoso foder e amar ao mesmo tempo”.

08/06/2023 / 07:59 PM
Acho que às vezes as pessoas veem meu rostinho bonito e esquecem que sou esperta.

Acredito que tenho desenvolvido uma consciência cada vez maior de como um tipo “agressivo” de sexualidade que atravessa subjetividades femininas (assim entendido por representar um desvio da matriz heteronormativa do sexo) intimida todos os homens — claro, talvez apenas não tenha ainda encontrado um homem que não se sentisse minimamente intimidado por eu viver minha sexualidade nos meus termos. Na minha experiência, eventualmente a angústia de castração toma conta e, mesmo que inconscientemente, há retaliação.

É diferente com as mulheres; as mulheres, que são fabricadas por meio de dispositivos amorosos, algumas que, como eu, lançam mão de cirurgias e procedimentos cosméticos para se tornarem bonecas, o que parece garantir uma espécie de aumento de valor social e, por que não, humano. Ainda me espanto com a quantidade de portas que se abriram depois que fiz a cirurgia de reconstrução facial. Sinto, no entanto, que no jogo dos relacionamentos entre homens e mulheres, mesmo investindo em capital erótico, sempre saio perdendo, como se o lugar de quem “recebe”, da pessoa que é copulada, nunca pudesse ser o de agência. Como se houvesse uma natureza passiva que, paradoxalmente, não se dobra ao ser desafiada.

Sigo fazendo as coisas do meu jeito, mas tem um preço. E não consigo ter tudo — que é precisamente o que quero.


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